BAQUE DO ACRE VOLUME 2 - CONTEÚDO
CD BAQUES DO ACRE VOLUME II
FICHA
TÉCNICA
Produção executiva, direção artística e
musical, arranjos, edições e mixagem: Alexandre Anselmo / técnico de gravação:
Alexandre Anselmo e Jardel Costa / Masterização: Wanderley Ferrante MCK /
Antonio Pedro: composições, voz, violão sustenido, sanfona harmônica 8 baixos
(em 12, 14, 16, 23), tambor Kampa,
tamborim paxiúba / Seu Bima: violão solo
(em 1, 3, 5, 6, 8, 10, 13, 18, 19, 21, 25) / Carmem Almeida: voz / Antonio Honorato: tambores de borracha, lata
com pele, balde de metal, de tucum com pele, espanta cão, colheres, cavaco
banjo / Alexandre Anselmo: violão sustenido e contracantos, cavaco, cavaco
banjo, bandolim, sanfona harmônica 12 baixos, baixolão, contra baixo, maracás,
chocalhos, agogô de castanha, triangulo,
recos, bumbo, zabumba, pandeiro, tambores acreanos de pele e borracha, espanta
cão, todos com execução de acordo com técnicas orientada pelos mestres, samples
midi, efeitos acústicos, apitos e captações de ambiências da floresta / Leilane
Lima: voz / Marilua Azevedo: ganzá / Artur Miúda: contra baixo / Victor Romero: cavaco banjo / Gravado entre
2010 e 2014 em home estúdio, Usina de arte, estúdio Nativoz / Designer gráfico: Gilberto Ávila / Produção
geral BAQUEMIRIM / Álbum fonográfico financiado por Fundo municipal de cultura
2012 fundação Garibaldi Brasil / Apoio da Usina de arte, SEME, Rede Banzeiro, Germano Lins, familiares,
amigos e todos que percebem e valorizam a memória e a identidade / agradecimentos a Deus e à Mãe Natureza / Autoria
das canções: Antonio Pedro (2, 4, 7, 9, 11, 15, 17, 20, 22) / Autoria
desconhecida ( 1, 3, 5, 6, 8, 10, 12, 13, 14, 16, 18, 19, 21, 23, 24, 25) todos
direitos estão reservados, 2014, Rio Branco, Acre, Brasil.
familiares, amigos (Mayra Pinho, Adalberto Silva, e todos que percebem e valorizam a memória e
a identidade / 2014, Rio Branco, Acre,
Brasil.
1.
TEXTO
APRESENTAÇÃO
CONTEXTO
O estado do Acre é conhecido como um estado
jovem, porém se forem considerados todos os seres humanos que em seus limites
ainda vivem os parâmetros para justificar estes povos temporalmente se
modificam muito.
Os primeiros são os povos indígenas, com dois
principais grupos troncos étnicos: os Pano que reivindicam a anterioridade
local, e os Aruak que descrevem ocupação a partir de mil anos D.C
aproximadamente.
Somente a partir da década de 1860 os
Brasileiros começaram a se ocupar e se relacionar com os habitantes locais. No
que é conhecido como primeiro ciclo da borracha a população predominante era
composta por nordestinos de diversos estados, paraenses e amazonenses. A
comunicação hídrica pelos rios Purús e Juruá fecha a linha horizontal que
esticava no sentido oeste os limites do país. É popularmente conhecido como o
tempo dos Brabos.
O segundo ciclo inicia com a segunda guerra
mundial, na ocasião da importação de mão de obra para os seringais com uma
predominância populacional desta vez, nordestina e principalmente do estado do
Ceará. É popularmente conhecido como o tempo dos Arigós.
Outra parcela muito significativa em nestes
dois ciclos foi a população de diversos países do Oriente Médio, vindos de
forma espontânea provavelmente e trabalhando principalmente com o comércio em
embarcações através das hidrovias.
Com os conflitos entre ocupadores e nações
indígenas, foram realizadas a partir do final da primeira década de 1900 foram as
primeiras ações de apaziguamento e civilização através da catequização e exploração
como mão de obra em muitos casos dentro de características de escravidão.
No esforço de imaginar a convivência daquela
época é possível perceber através de escritos, fontes orais, músicas e outras
formas de registros que a o universo musical cumpria os diversos papeis sociais
nos processos ali desenvolvidos, como comunicação, entretenimento,
espiritualidade, resistência cultural e colonização.
CD “O BAQUE DO ACRE
Em 2010 foi aprovado por edital financiado
pelo Banco da Amazônia o álbum coletânea “O Baque do Acre”. Seu conceito
consistia em registrar, apresentar e divulgar um panorama da música dos mestres
tradicionais da música do Acre através de seus repertórios e instrumentos.
Os participantes eram, Antonio Pedro, Seu
Bima, Antonio Honorato, Dona Carmem, Tia Vicência, Mestre Aldenor e Chico
Bruno.
Em três anos de trabalho o cd foi produzido e
o lançamento do mesmo feito nos municípios dos mestres que não retornavam há
décadas para os locais onde cresceram e viveram suas músicas.
A produção do áudio foi um processo intenso
comparável à montagem de um quebra cabeças de peças desconhecidas. As sessões
de gravações eram momentos em que os mestres descarregavam suas bibliotecas
sonoras de forma que a o limite de 77 minutos para um CDR ficasse pequeno.
Foto: Vincent Moon
SEGUNDO VOLUME
Com a oportunidade da aprovação em outro
edital, neste caso da Fundação Garibaldi Brasil do município de Rio Branco, foi
dada a continuidade do projeto.
Este segundo álbum daria o status de coleção como
segundo volume do Baque do Acre. Devido aos custos de produção o foco foi o
aprofundamento da obra dos artistas Antonio Pedro, Seu Bima, Antonio Honorato e
Dona Carmem. 60% do repertório já estava gravado desde o primeiro volume, e ao
termino do segundo, ainda restou material para outros números.
O conceito principal do álbum BAQUE DO ACRE II
é o hibridismo de uma musicalidade desenvolvida pelos rios, unindo elementos
indígenas, paraenses, amazonenses e nordestinos nos seringais principalmente no
primeiro ciclo da borracha.
Os temas e canções descrevem as relações e
transformações sociais no tempo e espaço que de forma intensa moldou fortes
parâmetros de identidade.
No objetivo de aproximar uma musica pouco
compreendida do grande publico, desde o primeiro volume foram iniciadas as
experiências com frequências de regiões mais graves através de microfonações
especificas e em especial a introdução do contra baixo. Este foi cuidadosamente
adaptado de acordo com as funções e células dos ritmos ensinados pelos mestres
em seus peculiares instrumentos. Os ritmos de baque de samba e marcha ainda não
havia sido transpostos para o baixo mas naturalmente as células mais graves
destes ritmos possuem espaçamento e desenhos simples o suficiente para que com
uma mixagem suave a sensação de chão e balanço ocorra de forma sutil sem
interferir ativamente no swing e caracterização rítmica.
INSTRUMENTOS
Foram introduzidos instrumentos que ainda não
haviam sidos construídos, adquiridos ou conhecidos no primeiro volume.
1- Os pífanos, conhecidos popularmente como
“Pife” traziam resquícios da resistência indígena tanto vinda dos migrantes
nordestinos quanto da ancestralidade nativa. Nos sopros nativos predominam
flautas da família das Queñas presente em todos Andes, tocadas em posição
vertical e sopro produzido por corte em “V”.
Outros sopros nativos são da família dos tubos
enfileirados conhecidos como “Flauta de Pan”, conhecidos como “Totama” para os
Ashaninkas.
Quanto a sopros de posição transversal, existe
um raro instrumento Ashaninka tocado somente pelas mulheres e do tronco Pano
existe uma flauta com furos quadrados tocadas pelos Katukina Noke Kui.
Segundo Antonio Honorato, 82, no Alto Purus da
década de 1950 era comum o comercio de gaitas nordestinas, feitas de metal,
instrumento típico dos Caboclinhos * . Este mesmo senhor ainda cultiva a arte
do “pifeiro” que foi muito comum devida a toda sorte de escassez de
instrumentos e muita taboca * nos seringais.
Embora tenha perdido algumas referencias para
afinação ele ainda produz seus instrumentos e entre seus contemporâneos e muito
comum as recordações destes pifeiros e das festas por eles animadas.
Para o álbum, eu fiz alguns arranjos de contra
canto e introdução com os pífanos gentilmente presenteados pelo amigo Iago
Tojal que produziu um especialmente no tom de Ré maior para as canções de
Antonio Pedro.
2- Tambores:
-Tambores de borracha: Feitos com corpo de
metal e pele confeccionada de látex defumado. Foram utilizadas peles produzidas
em parceria do Sr Aldenor e Antônio Honorato em 2010. A lata deve ser queimada
para um timbre mais puro do metal livre de papéis, tintas e ferrugens. Era
tocado tanto com as mão quanto com baquetas leves, finas e flexíveis de
madeira. É comum o relato da improvisação de sapato de látex em qualquer lata
em alguma festa onde faltasse um tambor. A pele sempre é presa por pressão de
uma tira de borracha, conhecida por sernambi.
Seu timbre é rico em harmônicos e no desafio
de gravar e equalizar foi buscada a conciliação entre frequências de todo o
conjunto, presença do “kick” e o timbre
marcante da borracha semelhante a um chute numa bola “dente de leite” para
futebol infantil.
Set de tambores acreanos: Procuramos reunir
algumas principais variantes dos tambores utilizados tradicionalmente por estes
mestres.
-Lata com pele animal: Foi utilizado com pele
de carneiro e lata grande para frequências graves.
-Nintiko Ashaninka: tambor tradicional com
versões muito semelhantes em outras etnias Aruak como os Manchineri. Este
utilizado no álbum é feito de madeira cedro talhada a mão, afinadores de cipó e
peles de porco e veado. Frequencia médio – graves.
-Tamborim de paxiúba: Modelo construído nas
oficinas de educação patrimonial com Antonio Pedro é o modelo por ele conhecido
nos cupixaus do rio Envira entre etnias Shanenawa, Jaminawa e Huni Kui. Desta
ultima era seu professor de tamborim, Chico Parirí, com quem aprendeu diversas
manulações e células que estão registradas no álbum e fazem parte da sua
linguagem, estendida também nos instrumentos harmônicos e melódicos.
-Balde: Feito de metal era utilizado pelo
seringueiro na colha do látex que se acumulava nos copinhos presos nas arvores.
Assim como o tambor de látex, é muito lembrado como instrumento improvisado,
sendo tocado tanto com as mão como com baquetas.
3- Colheres: Instrumento mundialmente
utilizado por improviso interpreta nas mãos do Antônio Honorato a tradução de
todos os baques por ele conhecidos. Utiliza o joelho e mãos em conchas para
produzir batidas dobradas e notas diferentes.
4- Rabeca: O arco possui uma forte referencia
na ancestralidade da floresta. Desde seu uso como arma de sobrevivência na caça
e guerra ao uso musical para comunicação espiritual. Os arcos de boca tanto
dedilhados quanto friccionados com outro arco eram e são utilizados pelos dois
troncos linguísticos dos nativos acreanos.
Atualmente mais frequente entre os Manxineru,
Ashaninka e Madija. A luteria de rabecas se adaptou facilmente desde o primeiro
ciclo e existem depoimentos de indígenas que faziam e tocavam o instrumento,
junto com os forasteiros. São conhecidos mestres do instrumento Daniel Pereira
de Matos, fundador da linha ayahuasqueira Barquinha e Hélio Melo. O Luthier
Neucimar que trabalha em Rio Branco tem como berço da profissão a tradição
familiar na luteria de rabecas. O álbum teve a colaboração e parceria do
violinista acreano Pedro Cruz em duas faixas.
Foto Arison Jardim
6- Violão sustenido: Afinação utilizada por
Antonio Pedro em que a corda sol é substituída por uma mi aguda afinada uma
oitava de sol acima, ou seja, a terceira casa da corda mi aguda. Atribui o uso
dela a partir de sua experiência com Ayahuasca e relacionando esta nota mais
aguda com o acorde formado nas vozes duplas da sanfona.
Outra referencia é o Chico Cego, violonista
que tocou na sede do Santo Daime Alto Santo e segundo o Sr. Júlio Carioca
Filho, também utilizava esta afinação e quando não havia a corda certa era
usada outra de espessura próxima que por sua vez era lixada para alcançar a
nota sem quebrar.
7- Banjo: Nos tempos em que não existia
amplificadores, a Del Vechio, uma fábrica de São Paulo desenvolveu instrumentos
como violão, bandolim e cavaco em versão banjo, ou seja, com a caixa acústica
de madeira e tampo de couro de cabra para atender a necessidade de mais volume
para instrumentos de corda, principalmente no contexto dos lugares abertos como
as ruas e terreiros. No Acre, além destes trazidos pelos comerciantes fluviais,
era comum um cavaco banjo artesanal feito com caixa acústica pequena com cerca
de 25 cm de diâmetro e peles de caça do mato, em especial a da cotia, e seu
nome popular regional é banjo caçarola, por menção aos instrumentos em que a
caixa também poderia ser feita a partir de uma pequena panela velha.
Foto Gilberto Ávila
NOTA SOBRE AUTORIA E DIREITOS AUTORAIS
Este trabalho tem como objetivo o registro urgente
de um repertorio com risco real de desaparecimento que já vem causando a
ausência de referencias e o agravamento da crise de identidade em que somente a
cultura dos opressores predomina como existente.
Os autores e interpretes de 100, 70, 50 anos
atrás que viveram no contexto dos seringais do Acre tinham a cultura oral como maior
meio de comunicação. Mesmo com a chegada do rádio e os gramofones, o acesso aos
mesmos era na realidade muito limitado. É lembrança saudosa da velha guarda
musical, as viagens de dias na lama, por curvas de rio ou varadouros de selva
para alguma festa, seja de adjunto de roçado *, santo ou aniversário. Não era
praxe dar nome as composições que por fim eram lembradas pelo somente pelo
ritmo e nome do compositor. A transmissão por memorização criava uma situação
propicia a reinterpretação, a versão, a reinvenção. É motivo de orgulho a
habilidade em aprender e memorizar canções ou temas quando escutados uma só vez
ao vivo ou até a distancia, de um barco por exemplo.
Tanto o termo “Tirar” quanto “copiar”
significavam compor, num tempo em que até uma interpretação acabava reinventado
repertórios compartilhados por diversos povos. É importante imaginar o que
acontecia a nível da subjetividade étnica onde culturas distintas travavam
sobreposições, opressões e assimilações. Por exemplo, quais células rítmicas um
indígena utilizaria para acompanhar um sanfoneiro nordestino? Mesmo que
reprimido ou treinado no padrão estrangeiro, é como um japonês aprender a tocar
samba carioca do dia para a noite.
Para fins jurídicos e de ISRC os temas
recolhidos por Seu Bima foram publicados com autoria desconhecida, mantendo a
autoria Moral nesta publicação anexa. É impossível encontrar qualquer
referencia concreta a estes autores, devido aos fatores: tempo transcorrido,
dispersão dos grupos por outros seringais e posteriormente para a capital,
ausência de dados e informações, ausência de nome nos temas. Existem temas que
Antonio Pedro afirma serem de autoria do Bima, que nega a mesma. De qualquer
forma a porcentagem que seria desconhecida teve que ser destinada ao próprio Seu
Bima, como interprete –autor.
O mesmo ocorreu com Antonio Pedro no caso dos
temas de seu pai, José Pedro, por não haver documentação como CPF ou RG para
cadastro.
Sendo assim, os direitos autorais estão
emparelhados no informante mais próximo da possível fonte ou autor, com ciência
de que são registros de patrimônio imaterial sem fins lucrativos e de uma
categoria musical sem as menores chances geração de renda significativa.
AUTORIA
DAS MUSICAS SEGUNDO SEU BIMA E ANTONIO PEDRO
1 1- BARCO VELEIRO; Choro Lundu; Bima sola Rumão do
Pernambuco
2 2- SAMBA DA YOLANDA e 1O DE ABRIL;
samba; Antonio Pedro
3 3- XOTE DO CHICO NUNES; xote; Bima sola Chico
Nunes
4 4-LUA SOBERBA PASSASSE; marcha; Antonio Pedro
5 5-VALSA XOTE; Desconhecido
6 6-PAPAI ADÃO, marcha; Zé Adelino do Envira
7 7-TOMBO DO CARNEIRO; samba; Antonio Pedro
8 8- SÓ TE PEÇO MEU BENZINHO QUE VÁ (Pedro
Barroso)/ Marcha sem nome (Zé Daví)
9 9-BRASILIA; samba; Antonio Pedro
10- CHORO
DO PASSO; choro; Bima sola Antonio Feliciano
1 11-Sambas:
PEGA NO PANDEIRO / SAUDADE ADORMECIDA / BAIANO / TAMBORIM NO SERENO; Antonio
Pedro
1 12-VALSAS
NA HARMÔNICA; José Pedro
13- EM
BELÉM EU NASCI; samba; desconhecido
14-CARREIRINHA;
dança; domínio público
15. SAMBAS
DO TAMBORIM E DO VIOLÃO; Antonio Pedro
16. XEREM
NA HARMÔNICA, José Pedro
17. O
BIGODE / HOMEM DE HOJE EM DIA; samba; Antonio Pedro
18. SAUDADE
DELA; marcha; desconhecido
19. AGUAS
VERDES; Choro; Bima sola Chico Nunes
20. TUDO
MOLE / NÃO VÁ BEBER; samba; Antonio Pedro
21. MARCHAS
DO ENVIRA (Bima sola Zé do cavaquinho e Nonato Estáquio)
22. DAMA DE
AMARELO / LUGAR ESQUISITO; marcha; Antonio Pedro
23. CANA
VERDE; dança; domínio público
24. SIRENE;
marcha; desconhecido (coletada por Antonio Honorato)
25. MEU
DEUS DO CÉU (Baixinho)/ Sem nome (Zé Taumaturgo) marchas
1- O
BARCO VELEIRO
Choro lundu
Instrumental
Autor: Rumão do Pernambuco
Solo violão e acompanhamento: Seu Bima
Pandeiro, efeitos, zampoña, banjo: Alexandre
Anselmo
Tema em
Mi menor com cromatismo característico na região norte. O autor, segundo Bima,
chegava de passagem do Pará e era violonista.
Neste
arranjo Bima gravou acompanhamento do que ritmo chamado de choro que possui
todas as células do lundu paraense. A zampoña entra para enfatizar a beleza da
passagem cromática do tema intercalado por progressão harmônica muito típica da
pratica violonista.
2- SAMBA
DA YOLANDA e 1O DE ABRIL
Baque de Samba
Antonio Pedro
Ói eu sou rio grandense, gosto de Paraguai
Gosto de minhas canções
Olha eu sou moleque bamba eu copeio qualquer
samba
Acompanhado em violão
Namorei a Yolanda, ela me pediu um samba
Eu disse eu vou copiar
Quando eu copiei o samba e cantei pra Yolanda
Ela começou a chorar
Eu mandei fazer um sobrado de vinte e cinco
janelas
Para morar lá lá
Pra morar com a Yolanda
É uma menina bacana no dia que nós casar
1o
DE ABRIL
Quando eu cheguei lá em casa
Encontrei a mulher contrariada
Quando me viu foi dizendo
Por que o senhor não volta pra viver com a sua
amada
Eu estranhei sua pergunta
Sem ter o que responder esperando a indicação
Ela já estava zangada
A resposta era uma carta, foi botou nas minhas
mãos
A carta era bem filosofada
Carimbada e aletrada, com uma folha de jasmim
trá lá lá
Ela leu a carta, olhou para mim e sorriu
Disse eu sou o teu amor, hoje é primeiro de
abril
Canções
tiradas por Antonio Pedro em sua juventude marcada por três casamentos desde os
16 anos de idade. Todas suas esposas foram carregadas, ou seja, fugiram dos
pais e tinham suas vidas matrimoniais construídas com muita independência
dentro da floresta. Para isso, o rapaz-homem necessitava apenas de um machado e
um terçado, para construir uma casa de paxiúba e da espingarda que trazia o
alimento. Passado cerca de um ano as famílias se na maioria das vezes, se conformavam e
reestabeleciam o convívio delegando as responsabilidades hereditárias.
O Samba
da Yolanda descreve o sonho e a promessa dele para a amada, e 1o de
Abril um momento já do relacionamento em matrimonio.
3-XOTE
DO CHICO NUNES
Chico Nunes
Segundo
Bima e Antonio Pedro, Chico Nunes era negro de estatura alta e temperamento
forte, ao que é comum o adjetivo de “positivo”. Tocava harmônica de 12 baixos e
violão, e em suas composições é recorrente como neste xote melodias ao mesmo
tempo muito econômicas e complexas quanto os saltos de intervalo e
principalmente separando dois temas das tonalidades relativas.
Neste
arranjo foram gravados os pífanos e em destaque o espanta cão revezando com a
zabumba.
4- A
LUA PASSOU
Marcha
Antonio Pedro
E mais se a lua soberba passasse
Eu queria uma noite de lua
Mas o seu guarda saiu lá na esquina
Eu queria me casar com a dona Terezinha
A lua passou
E o seu guarda bambeou
E eu passei um beijo nela
E logo ela desmaiou
Alguns
elementos da vida urbana chegavam via oral nos seringais, onde não haviam
esquinas nem guarda noturno. Chegavam além de canções que eram reinventadas,
histórias de como eram as distantes cidades para onde era destinada a borracha
que eles mesmos colhiam.
5-VALSA-XOTE
Valsa / xote
Desconhecido
O
repertorio deste CD vem de um contexto em que cumpria seu sentido aliado com a
dança. Estas, todas eram de casais e possuíam muitas variantes, e uma delas era
a intercalação de ritmos diferentes, como neste exemplo de valsa com xote.
No
arranjo temos o revezamento entre a zabumba e o espanta-cão.
6-PAPAI
ADÃO
Marcha
Esta
marcha Bima atribui a Zé Adelino do Envira, mas tem outra possível autoria por
também ser conhecida por pessoas de Cruzeiro do Sul e da Boca do Acre, locais
completamente distintos e distantes entre si. Papai Adão é uma canção conhecida
do 1o ciclo da borracha, e o segundo tema gravado em seguida, apesar
de sua beleza formal não possui referencias de autoria e nome.
7-O
TOMBO DO CARNEIRO
Samba
Antonio
Pedro
Olha eu sou moleque dengoso
E também sei cantar
Eu estando com meu pinho
Faço as morenas se incomodar
Ninguém duvide que eu sou cantor
Eu vivo na cidade é soduzindo o meu amor
Mingau de milho, é Carimã bolo de puba
Eu comi Pirapituba e o Mané tomou Aluá.
Olha eu sou moleque dengoso
Também sei tocar
Eu estando com meu pinho
Faço as morenas se incomodar
Ninguém duvide que eu sou cantor
Eu vivo na cidade é seduzindo o meu amor
Mingau de milho, é Carimã bolo de puba
Eu comi Pitapituba e o Mané tomou Aluá.
E olha o tombo do carneiro nero nê lê lê lê
E olha o tombo do carneiro nero lá
Composição
da década de 1960 que descreve o status do musico dentro das festas, na
esperança de conseguir uma namorada. O refrão é herança dos repentes
nordestinos com um típico trava-língua em que são citados alguns alimentos
típicos dos seringais, que ficaram no esquecimento, como:
*Mingau
de milho
*Bolo
de puba
*Pirapituba:
macaxeira assada
*Carimã:
farinha puba
*Aluá:
vinho fermentado de frutas como abacaxi
8-SÓ TE
PEÇO MEU BENZINHO QUE VÁ
Marcha
Desconhecido
A
primeira marcha Bima atribui ao violonista seringueiro paraense Pedro Barroso.
É uma canção que marca uma tragédia: O autor caminhava e cantava esta mesma
marcha e numa queda em um barranco sua espingarda disparou provocando sua
morte.
A
segunda marcha Bima atribui a Zé Daví, acreano, e não possui nome, e também era
uma canção.
9-VIAJEM
A BRASÍLIA
Samba
Antonio
Pedro
No Brasil já inventaram
Mais uma nova cidade
Antigamente era um sonho
Hoje é realidade
A gente vem em Brasília
Estradas que não tem fim
Eu pergunto ao meu Sanango
Ele me responde assim:
Esta vai para São Paulo, Rio Grande e Paraná
Esta vai pra Pernambuco e aquela vai pro Pará
A gente vê o planalto
Parece que dá a imprenssão
A gente vê o céu tão baixo
Parece que encosta no chão
Quem tiver de mala pronta
Pode ir que se dá bem
Junte a suas maleta
E o seu xodó também
Isso é conselho para os homem porque mulher lá
não tem
Composta
em 1962, celebra e descreve os boatos a cerca da nova capital nacional. A letra
mistura sentidos reais e históricos quando cita o “Sanango” que pode ter
derivado do “Candango”, que era o colonizador que foi força de trabalho na
construção da cidade e ao mesmo tempo agrega sentidos da palavra “Sananga” que
é uma medicina indígena para o tratamento da visão, depressão e clarividência.
Neste sentido temos imagens surreais de uma viajem área feita pelo próprio
Antonio Pedro através da vidência em busca de conhecer a capital distante e
seus caminhos Brasil afora.
10- O
CHORO DO PASSO
Choro lundu
Desconhecido
Atribuído
por Bima a Antonio Feliciano. O titulo dado por ocasião deste álbum é
referencia ao uso do tema como introdução na canção O passo da natureza,
gravada em seu primeiro álbum com o mesmo nome, também executada por Antonio
Pedro, porém adaptada no baque de samba.
11- PEGA
NO PANDEIRO
Samba
Antonio
Pedro
Pega no pandeiro, sapateia no terreiro até o
dia clarear,
Mas olha a lua, como está brilhando, eu estou
gostando de ver meu bem sambar.
Pega no pandeiro,vem sambar perto de mim
Vou te ensinar como se bate um tamborim
Eu caio no samba, eu bato a mão em meu
pandeiro
Todo mundo grita: Salve o galo do terreiro!
Na roda de samba sempre tem um bacharel
Moro no morro, fica lá pertinho do céu
O cavaquinho que já está me convidando
A batucada que já está se acabando
Você não vai é porque não quer
Não troco o samba por amor de uma mulher
Eu dentro do samba, eu me sinto bem
Eu gosto de você e gosto do samba também
SAUDADE
ADORMECIDA
Saudade adormecia, eu levo o meu sonho a
cantar
Como é triste a minha vida de amar aquém não
me sabe amar
Quando eu canto menos eu choro, como meu rosto
emaçerado
Eu digo adeus porque me adora, com meu coração
gelado
Quem espera sempre alcança, diz o ditado
Que o meu modo de pensar está muito errado
Mas eu já perdi a esperança
Mas confio no ditado: Quem espera sempre
alcança!
SAMBA
DO BAIANO
Ontem eu saí da Bahia porque mandaram me
chamar
Porque meu baiano queria ver meu modo de eu
sambar
Eu peguei no pandeiro e pulei no terreiro
Eu fiz o samba raiar!
Em menos de dois segundos estava enfestado
enfezado
Botei mesmo para abafar
Cheio de gosti –babá
Mas eu deixei meu baiano abafado
Arrecebi um convite
Do diretor da escola
Não preciso de carteira
E nem tão pouco minha cartola
A gente vai como quer
Sozinho com uma mulher
Eu estando no meio do samba
Só não dança quem não quer
TAMBORIM
NO SERENO
Botei meu tamborim La na calçada
O orvalho da madrugada molhou
A noite está se passando
Meu colegas estão me esperando
Sem tamborim eu não vou
Já estou fazendo falta
No meio da batucada
Porque não fui o samba
A Iá Iá já está zangada
Eu comprei com a baiana
E fiz tudo por ela enfim
E o malvado do sereno molhou meu tamborim
Nasci pra cantar samba
Nos batuques alevados
Nasci pra cantar samba
No romper da madrugada
Essas morenas
Elas não olham pra mim
O malvado do sereno molhou o meu tamborim
O Pout
Pourri foi montado com o objetivo de agrupar canções com a temática do samba.
Pega no
pandeiro é muito antigo e agrega um refrão “Você não vai, é por que não
quer...” que é conhecido por outras fontes, mas a letra é reivindicada pelo
autor Antonio Pedro. Descreve o ciúmes da mulher que não quer acompanhar o
esposo que gosta de ir as festas.
Saudade
adormecida foi composta quando ainda tinha 14 anos, para uma namorada que se
tornaria sua primeira esposa.
Samba
do baiano foi escolhida pelo titulo, mas já na finalização do álbum foi
revelado que não é uma canção de festa, e sim um enverseio de doutrina de
espíritos agressivos. Na miração, visitou um terreiro da Bahia onde foi
testado. Em sua apresentação, provoca a ira do espirito do baiano que fica
enfezado, e é “abafado” por sua execução do samba com o pandeiro. Dominada a
força contrária, recebe o convite da direção da escola ayahuasqueira onde não
leva carteira (apegos materiais) nem a cartola (vaidades) e entra com sua
companheira Dona Carmem no reinado espiritual.
Tamborim
no sereno já é uma canção de festa, com a figura central do instrumento que
nomeia os tambores acreanos de borracha ou pele animal.
12-
VALSA NA HARMÔNICA
Valsa
José
Pedro (pai de Antonio Pedro)
São
duas valsas atribuídas a seu pai Jose Pedro com arranjos em tambor de látex.
Execução
de Antonio Pedro na harmônica de 8 baixos.
13- EM
BELÉM EU NASCI
Samba
Desconhecido
Jesus, em Belém eu nasci
Quem me dera eu voltar
Pro Belém do Pará
Tem tem xiquixí
Tem tem sururu
Tem tem malacú
Tem tem tacacá
Nas
sessões de gravação de 2010 seu Bima executou este solo com dois sambas
emendados. O primeiro que da o titulo da faixa teve a primeira parte da letra
lembrada por Antonio Honorato e a segunda parte por Antonio Pedro. Já após o
termino do álbum foi descoberta uma versão gravada por Luis Gonzaga em que
somente o primeiro trecho da letra fazia parte de uma letra bem maior, podendo
ser um a versão acreana uma recriação a partir de um fragmento. Mas um dado
importante é que existem diversas canções do cancioneiro seringueiro em que é
descrita a saudade dos paraenses para com sua terra natal dado o grande contingente
de trabalhadores migrados deste estado, dissolvendo a ideia hegemônica da
colonização nordestina nos seringais.
O
segundo tema é identificado por Antonio Honorato como um samba “machucado”
devido a qualidade de suas sincopas com tendências tercinadas.
14-
CARREIRINHA
Xote de
salão
Tradicional
domínio público
Dança
de casal com passos soltos e voltas, muito apreciado nos barracões. Execução de
harmônica de 8 baixos por Antonio Pedro.
15- O
TAMBORIM E O VIOLÃO
Samba
Antonio
Pedro
TAMBORIM
NA CALÇADA
Deixei meu tamborim La na calçada
O orvalho da madrugada molhou
A noite está se passando
Meu colegas estão me esperando
Sem tamborim eu não vou
Nasci pra cantar samba
Nos batuques alevados
Nasci pra cantar samba
No romper da madrugada
Essas morenas
Elas não olham pra mim
O malvado do sereno molhou o meu tamborim
SAMBA
DO VIOLÃO
O meu violão, porque chora tanto assim?
Chora lamentando a minha dor
Se for por causa daquela ingrata violão,
Vou te consolar que também vivo sem amor
Eu não tenho mais amor nem amizade
Vou viver com a saudade que o destino me
deixou
Se for por causa daquela ingrata violão,
Vou te consola que também vivo sem amor
Primeiro
o samba do tamborim que se espalhou por muitos seringais da época, ainda
lembrado por indígenas mais antigos da etnia Yawanawá por exemplo.
Na
introdução um solo de tamborim executado por Antonio Pedro, além de outros
gravados durante a faixa.
O samba
do violão também é muito antigo composto ainda em sua juventude.
16-XERÉM
DE SERNAMBÍ
Samba
José
Pedro (pai de Antonio Pedro)
Dança
trazida do nordeste, é possui duas partes em que os movimentos também
acompanham a subdivisão da musica em que é dado o adjetivo de peneirado devido
o encurtamento dos passos. É descrita como dança de terreiro e com passos arrastando
os pés no chão. Execução de harmônica de 8 baixos por Antonio Pedro.
17- O
BIGODE E HOMENS DE HOJE EM DIA
Samba
Antonio
Pedro
O
BIGODE
Quando eu cheguei lá em casa
A
mulher começo a falar
Cala a boca deixa de conversa
Eu já tô é pra me danar
E eu voltei para o barbeiro, fiz o bigode ele
emendar
Cadê tua barba
O barbeiro tirou
Mas cadê teu bigode
O barbeiro rapou
Quando eu cheguei lá em casa
A mulher tava danada
Com a cuia de farinha
E um pedaço de carne assada
E eu voltei para o barbeiro, fiz o bigode ele
emendar
Cadê tua barba
O barbeiro tirou
Mas cadê teu bigode
O barbeiro rapou
No dia que eu for baixar
Saudade eu vou deixar
Eu vou embora daqui
Não sei se ainda volto cá
E eu voltei para o barbeiro, fiz o bigode ele
emendar
Cadê tua barba
O barbeiro tirou
Mas cadê teu bigode
O barbeiro rapou
OS
HOMENS DE HOJE EM DIA
Os homens de hoje em dia são sujeito as mulher
Malando, não vá para isso, veja, veja se não
é!
O pobre homem levanta de manhã cedo
Chega logo na cozinha, faz o fogo e faz café
E a mulher sapateia no corredor
-Na cozinha ou não vou, e faça café se quiser
E o malandro acha que não está direito
-Eu morro magro mas não me asujeito, eu nasci
foi para ser homem!
Sambas
que descrevem com humor as mudanças sociais na vida conjugal em relação ao
machismo. Quando diz em baixar se refere a partir embora descendo o rio.
18-
SAUDADE DELA
Marcha
Desconhecido
Marcha
em lá maior com execução de Seu Bima.
19-
ÁGUAS VERDES
Choro
lundu
Chico
Nunes
Este
tema também foi utilizado por Antonio Pedro como samba no CD “O baile do
seringueiro” como introdução da canção “Samba da boca do Acre”. O autor tocava
harmônica e violão e tem na execução técnica e linguagem violonística, partindo
da tonalidade de mi menor que possibilita um slide na abertura da melodia e o
uso de cordas soltas. A segunda parte da melodia tem sincopas rebuscadas.
20-
TUDO MOLE E NÃO VÁ BEBER
Samba
Antonio
Pedro
TUDO
MOLE
Se tudo mole toma mais um gole, fica todo mole
E não vai fazer um pontinho dentro do botequim
E aproveita quando a filha bebe,
E depois ainda não leva um bocadinho para mim
De manhazinha lá em casa toda hora
Parece que nós já mora dentro de um bilhar
A três dias passa a mão no taco
Esperando até um dia do dinheiro que ganhar
Dm
Botei comida para você no fogo
Deixou o dinheiro no jogo e não sobrou nenhum
vintém
E na sinuca de não ter saída,
Quem sabe da sua vida é o dono do armazém
E a três dias passa a mão no taco
Esperando até um dia que o dinheiro vem
D
Vai na sinuca de ‘bi”*, ei!
E dá no passo do baião
*dinheiro
NÃO VÁ
BEBER
Não vá beber, tú não vá te embriagar
Por uma mulher que a você não soube amar
Isso não está bem, isso aqui não está direito
A mulher hoje em dia não tem diferença a
ninguém
Mas quando um grande amor for embora
A gente fica triste mas não chora
Procura se conformar, que o tempo faz esquecer
Mas não adianta beber
O
primeiro tema conta a história de uma família dominada pelos vícios do álcool e
do jogo e o segundo é um conselho para não beber por causa de amor não
correspondido. Tem como destaque a execução do instrumento endêmico no Acre, o
Espanta-cão.
21-
MARCHAS DO ENVIRA
Marchas
desconhecido
Duas
marchas recolhidas por Bima nos seringais do rio Envira da década de 1950.
Atribui a primeira a um caboclo acreano chamado Zé do cavaquinho e a segunda ao cearence Nonato Estáquio.
Antonio
Pedro executa um tamborim grave acentuando a linha rítmica que acompanha a
melodia, muito característica no baque de marcha.
22- A
DAMA DE AMARELO E LUGAR ESQUISITO
Marchas
desconhecido
A DAMA
DE AMARELO
O que é que tem aquela dama de amarelo
Três vez que eu tiro ela, ela está me
recusando.
Cadê meu chefe da casa,
E o fiscal do salão, não posso resolver ô, esta situação.
Eu fui cortado pela dama de amarelo
E arismim, arismim, eu não sou um par de
chinelo (arismim=ressentimento)
Pois eu sou um cavaleiro que eu já paguei para
entrar
Ou devolva o meu dinheiro ou ela tem que
dançar.
LUGAR
ESQUISITO
Eu te botar num lugar esquisito
Onde não ouça grito e galo cantar
E só se ouve o pipoco da bala, a fumaça
pólvora e ele guerrear
Lá na cajazeira já tem luz elétrica
Mas ninguém não sabe quem foi quem botou
Foi um rapaz que veio da Alemanha
Todo mundo apanha no pé do motor
Dama de
amarelo é uma personagem quase mítica dos bailes seringueiros, que era
referencia à moça que dava “canelada”, ou seja, se recusava a dançar. Era comum
neste caso a punição com a exclusão da festa em um quarto da residência, pois
isso era considerado uma desfeita com o dono da festa e a quem levou a
canelada. O ambiente era ordeiro e respeitoso, onde todos deveriam dançar de forma
respeitosa e sem malícia. Quem tinha filhas ou e esposa não era bem vindo nas
festas sem a presenças mesmas, também sendo um desrespeito por desconfiar da
integridade dos homens, havendo o dizer de que “quem não levar mulher também
não dança”. Curiosamente, apesar do folclore a respeito dos bailes em que
homens dançavam com homens, nas fontes diretas não foram encontradas
referencias a esta prática.
É
citado o fiscal do salão, que era uma pessoa responsável por manter a ordem na
festa recebendo as bebidas trazidas pelos convidados e servindo em um único
local no interior da residência, não sendo permitido o uso nos locais externos
que recebiam o nome de “barreiro”(local onde os animais de juntam para se
alimentarem do sal contido na lama).
Lugar
esquisito é uma recriação de uma canção do tempo da segunda guerra e a ameaça
de ser mandado para a Europa para o front. A segunda estrofe misteriosamente
denuncia a presença de um alemão que instalava a luz elétrica gerada por motor
a combustível.
23-
CANA VERDE
Dança
de salão
Tradicional
domínio publico
Com
execução de Antonio Pedro na harmônica de 8 baixos é uma dança com herança do
brinquedo Escravos de Jó, de provável origem oriental, ainda encontrada na
Índia e Indonésia, em que os brincantes dançam sobre varas dispostas no chão.
24- SIRENE
Marcha
(Desconhecido,
recolhido por Antonio Honorato de Holanda)
Ê cadê a sirene
Ela está para baixar
Em outubro de novo
Ela vai voltar
Sirene quando sobe
Que no rio deixa um banzeiro
Joga as canoas no seco
E de trás o fumaçeiro
Ela apanhou do Joval
Ninguém pode dizer nada
Que o Joval ia seco
Sirene ia carregada
Sirene quando sobre
Traz do cachimbo o chapéu
Mas o dono da Sirene
É seu Raimundo Xaviel
Sirene quando sobre
Traz do cachimbo a xita
Aqui no rio Purus
Sirene é a mais bonita
Sirene é um barco
Que aqui foi do melhor
A lembrança desta música
É o senhor Chico Arigó
Recolhida
por Antonio Honorato quando morava na década de 1950 no rio Purús, seringal
Andirá.
Quando
alguém sonhava por três sexta feiras que um espirito indicava um local
determinado, era sinal de que ali estava enterrado um tesouro chamado “Botija”,
que era um grande vaso de cerâmica recheado de ouro. Isso pode te relação com o
afamado mito do Eldorado em que os indígenas teriam enterrado essas riquezas
para esconder dos espanhóis. Quem a encontrasse teria como contrapartida da
riqueza adquirida não poder nunca mais morar no local onde foi encontrada, sob
pena de morrer de doença ou acidente.
A
autoria é indicada pela citação do Chico Arigó, que conta a história do
Raimundo Xavier que encontrou a dita Botija e comprou uma baleeira, embarcação
típica usada pelos comerciantes e a batizou de Sirene. A canção cita os
produtos que trazidos por ele que pelo vivia em transito pelo rio Purús, e o
episódio em que perdeu uma corrida com outra embarcação chamada Joval.
25- MEU
DEUS DO CÉU
Marcha
Desconhecido
O
primeiro tema que da nome a faixa é atribuído por Bima ao acreano conhecido
como Baixinho, e o segundo não tem título, do paraense Zé Taumaturgo. “Meu Deus
do céu” é uma exclamação muito típica do povo acreano, encerrando a segunda
edição da coleção BAQUE DO ACRE.

foto Priscila Tellmon
Parabéns por seu trabalho, a gente vê que tem conteúdo.
ResponderExcluirMuito obrigado, esse conteúdo me motiva! É uma experiência muito intensa e gratificante a convivência com os mestre. Ficamos felizes com o reconhecimento!
ExcluirBelíssimo trabalho. Apresentação e ficha técnica excelente. É de projetos assim que a música do Brasil precisa. Parabéns e bora fazer outro.
ResponderExcluirObrigado meu amigo e professor!
ExcluirOi, Alexandre Anselmo. Como faço para conseguir um cd desse? Uma das músicas faz menção a meu avó, então é algo que quero me lembrar para sempre... Ah... moro em Porto Velho/RO, mas sou do Acre. E-mail fsantos_ro@hotmail.com
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